JP Simões, “1970”

jpsimoes_1970.jpgLançado na primeira quinzena deste ano e ouvido por muitos ainda em 2006, “1970” é um álbum que poderá ficar, injustamente, de fora dos melhores álbuns nacionais deste ano. É o primeiro álbum a solo de JP Simões, apesar da sua já longa carreira como músico, onde passou por bandas como os Belle Chase Hotel, Pop Dell’Arte ou Quinteto Tati.

Sobre “1970” pode-se dizer que é um álbum cheio de óptimas canções que vai buscar muitas influências ao Brasil e à década de 70. Está lá o samba, está lá o retrato que JP Simões faz da sua geração e a Inquietação de José Mário Branco. Também se pode encontrar alguma coisa de Sérgio Godinho.

JP Simões escreve também bastante bem. É um álbum cheio letras muito bonitas, que não passam despercebidas a quem ouve, o que, infelizmente muitas vezes não acontece noutros álbuns. É pena não ouvirmos mais vezes a nossa Língua cantada desta maneira. Soa bem do início ao fim.

“1970” não se ouve na sua totalidade à primeira. É daqueles álbuns que se vai tornando maior, se vai descobrindo aos poucos. Vale a pena experimentar, mesmo não sendo um conhecedor e/ou admirador da música que se faz do outro lado do Atlântico ou da sua carreira anterior a “1970”. Eu não o sou.

 

Aproveito para deixar também a excelente letra de uma das grandes canções do álbum, 1970 (Retrato). Ouvi-la cantada é ainda melhor.


A minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou,
ou então morreu; já se acabou.

A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas, e de autistas
estatelou-se docemente contra o céu.

A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão,
brincou às mil revoluções amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.

A minha geração só se comove com excessos, com hecatombes,
com acessos de bruta cólera, de mortes, de misérias, de mentiras,
de reflexos da sua funda castração.

A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso,
e um belo dia esqueceu tudo e fez-se à vida
na cegueira do comércio.

A minha geração é toda a minha solidão, é flor de ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício, toda vício, toda boca
e pouca coisa na mão.

Vai minha geração, ergue a cabeça e solta os teus filhos no esplendor
do lixo e do descuido, deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência vai
corroendo a doçura da sua infância.
Vai minha geração, reage, diz que não é nada assim,
que é um lamentável engano, erro tipográfico, estatística imprecisa, puro
preconceito, que o teu único defeito é ter demasiadas
qualidades e tropeçar nelas.
Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente que és por demais
inteligente para sujar as mãos neste velho processo, triste traste de Deus,
de fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhores do que antes.
Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada,
com medo de ser inventada, o que é que te falta agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração
ou só te resta morrer desintegrada?

Mas, minha geração, valeu a trapaça, até teve graça,
tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto copo,
e a comida estava óptima! O que vamos fazer?

FPL 9000

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~ por FPL 9000 em 231107.

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