Radiohead, “Kid A”

kid-a.jpgNuma altura em que se fala dos álbuns do ano, vamos recuar 7 anos até à altura do lançamento de um (na minha opinião) dos melhores álbuns de sempre. Em 2000 era lançado o 4º registo dos Radiohead sem qualquer tipo de publicidade, entrevistas, singles ou vídeos.

“Kid A”, refere-se ao primeiro clone humano. Filho da tecnologia e profundamente inspirado por esta, sem no entanto perder o seu carácter humano. Começa por apresentar-se em “Everything in its right place” onde o título da música é repetido como um mantra como uma forma de encontrar o seu sítio certo na vida e na sociedade.

Segue-se a claustrofobia de “Kid A” onde a personagem de voz mecanizada que tem medo de dormir é subitamente libertada de uma cascata de som brilhante, provavelmente vinda de um sonho. Numa crise de identidade marcada pela estranheza dos sons que irrompem de “The National Anthem” o nosso clone grita que everyone is so near referindo-se, talvez, à asfixia provocada pelo excesso de comunicação e invasão da sua vida privada por parte da publicidade (uma vez que a banda também foi influenciada pelo livro anti-capitalista No Logo). A música é um reflexo do caos da sociedade moderna, sobreposição de informação e falta de espaço pessoal. Numa tentativa de escape, Kid A, repete para si mesmo: I’m not here this isn’t happening – tentando desaparecer completamente, para nunca mais ser encontrado. Mas não desaparece, aqui é dada uma visão mais introspectiva e orgânica em que Kid A afirma que não é aquilo que parece, é livre.

A meio da sua viagem, Kid A, entra em transe numa floresta flutuante. É calmamente conduzido a uma nova fase da sua vida – uma fase optimista. Kid A esforça-se para fechar os olhos à imposição de uma vida que não é a sua tentando fazer o melhor que pode. Embalado pela azáfama dos dias, Kid A olha pela janela e vê os dinossauros percorrerem a terra. Agora, encontra-se no limbo. Dividido entre o seu mundo real e o imaginário, sente-se perdido. Não entende o significado da sua vida e do mundo em que habita. As ondas escuras do Irishsea submergem-no aos poucos, acabando por ser sugado numa espiral de sons.

Kid A, acorda num hospício. A batida maquinal rege os seus movimentos. Parece não ter domínio sobre as palavras. Estas irrompem de si sem sentido mas com a revolta paranóica de habitar um mundo incompreensível. Apesar da sobrecarga, aqui, Kid A, sente-se vivo.

Na sua última fase, espera por uma campainha que o acorde e que o liberte. A paranóia mal curada ouve-se no tom arrastado da sua voz. Anda em círculos, anda, anda, anda.

Para a sua despedida, Kid A, guarda uma canção ao piano. Na tristeza dos seus últimos momentos, acusa-nos de sermos loucos por ainda cá estarmos, por fazermos isto todos os dias. Diz que somos impulsionados, apenas, pelas mentiras dos finais felizes do cinema. Apesar de tudo, Kid A, não guarda magoa desta vida esperando encontrar-se connosco numa próxima.

Essa próxima vida viria já no ano seguinte em “Amnesiac”.

ACG 9000
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~ por ACG 9000 em 271207.

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